Por que o Brasil produz tanta soja (e deve bater novo recorde neste ano)? Uma resposta simples à pergunta é dizer que o grão está na base da alimentação de animais bastante presentes na nutrição humana, como frangos e suínos.

A planta tem teores de proteína muito superiores a outras leguminosas como o feijão, por exemplo. Enquanto 37% da soja é proteína, no feijão carioca essa quantidade cai para 20%.

O grão é imprescindível na ração animal, não apenas aqueles criados para o consumo alimentar. Cães e gatos também se alimentam de rações compostas por farelo de soja.

Para o consumo humano, há uma diversidade incrível de produtos. Além do grão, a soja entra na composição de margarinas, tofu, salgadinhos industrializados e salsicha.

Tem aplicações também em biocombustível, pneus, cosmético, química (onde é utilizada na produção de tintas) e indústria farmacêutica.

De uma forma ou de outra, todo mundo consome soja. Por isso ela é tão demandada. E o Brasil, com suas 135 milhões de toneladas por ano, é o maior produtor do mundo.

Farelo é base para ração de galinha, porco, boi, cão e gato

A soja tem dois produtos principais: óleo e farelo, diz o professor de nutrição animal da Unesp Otto Junqueira.

O farelo, que tem entre 45% e 48% de proteína, é utilizado basicamente na composição de todas as rações, principalmente de aves e suínos, mas também de bovinos e peixes de cultivo, além de cães e gatos.

A soja consumida in natura para a alimentação humana é uma parcela muito pequena da produção total, representando cerca de 2% apenas. O grosso mesmo vai para os animais.

“O farelo é componente imprescindível em qualquer ração animal, principalmente de aves e suínos. Hoje o Brasil produz em torno de 70 milhões de toneladas de ração por ano, e 70% disso é destinado a aves e suínos”, diz o professor.

Além disso, como o grão é muito proteico, o consumo in natura ou de seus derivados faz com que o alimento seja cada vez mais procurado por vegetarianos e veganos.

“A soja é uma proteína de altíssima qualidade, muito rica em aminoácidos. É um alimento nobre.”

Soja é tudo igual?

Por entrar na alimentação animal, a soja é considerada uma proteína intermediária, porque é consumida indiretamente por humanos, como afirma o pesquisador da Embrapa Soja Marcelo Alvares de Oliveira.

Sem a soja, a disponibilidade de animais de criação -e consequentemente a quantidade de carne disponível- seria menor. A commodity acabou se tornando protagonista entre os demais produtos agrícolas porque ela ajuda a alimentar o planeta.

Oliveira diz que existem sojas de três tipos: a transgênica, que é a majoritária; a convencional, que compreende apenas cerca de 3% do mercado; e a orgânica, produzida em quantidade muito pequena.

Enquanto a transgênica utiliza sementes geneticamente modificadas (OGMs) e insumos químicos, a planta convencional não adota OGMs, apesar de aderir ao mesmo tipo de insumos.

A soja orgânica não utiliza uma coisa nem outra e segue uma legislação específica. Por ser um nicho muito específico, a produção de soja orgânica é mais cara, mas também mais rentável que as demais.

Tropicalização permitiu expansão para todo o país

Apesar dessas diferenças entre os tipos, os produtos que podem ser feitos a partir deles são os mesmos, declara Marcelo Oliveira, da Embrapa Soja. “Claro que os grãos de melhor qualidade, com menos defeitos, acabam destinados à alimentação humana.”

Uma das principais aplicações da soja na dieta humana aparece na composição de bebidas, como leite de soja e sucos de frutas industrializados.

Marcelo ainda diz que hoje há uma tendência das chamadas plant based, ou à base de planta, que utilizam soja como intermediário para produtos como patês, por exemplo.

Pesquisas feitas pela Embrapa, com melhoramento de solos e de plantações, a soja, que é de origem asiática, tropicalizou-se. Foi introduzida na região Sul do Brasil, mas depois se espalhou por todo o país.

Hoje ao lado dos Estados Unidos e da Argentina, o país responde por 80% de toda a soja do mundo.

Grão provocou intensas transformações logísticas

O volume da soja do Brasil mudou consideravelmente a economia e a logística do país. Como boa parte da produção é destinada ao mercado externo (85 milhões de toneladas), a produção provocou mudanças nas rotas e terminais de escoamento, afirma o presidente-executivo da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais, André Nassar.

“O porto de Santos cresceu enormemente por causa do volume de soja exportado. Também a isso podem ser atribuídos os portos que surgiram ou se expandiram no Norte do país nos últimos anos. Uma safra utiliza cerca de 300 mil caminhões por ano. É um volume muito grande, que movimenta a economia do país.”

Em 2020, as exportações do complexo soja (grão, farelo e óleo) alcançaram um total de US$ 35,2 bilhões. Neste ano, a projeção feita em setembro pela Abiove é de que as exportações alcancem US$ 47,2 bilhões.

Por ser um item processado, o mercado do óleo tem um pouco mais de valor em relação ao grão. O óleo esmagado é transformado em biodiesel ou pode ser refinado e ir para restaurantes e comércio.

Apesar de ainda não estar totalmente estruturada, a cadeia também recebe de volta óleos utilizados, numa economia circular em que parte do produto é destinada à indústria química.

Fonte: Economia Uol