Um manejo eficiente do solo pode ser resumido como aquele que proporciona boa produtividade e ao mesmo tempo garanta a manutenção da fertilidade para as próximas safras.

Diversas técnicas são utilizadas na agricultura para se obter um bom manejo, a depender de cada tipo de solo e cultura, mas dentre elas há uma universal: a agricultura de precisão.

Também chamada de AP, a agricultura de precisão avança a passos largos na agricultura moderna, com o uso de tecnologias diversas.

Na cacauicultura praticada no sul da Bahia, por exemplo, sua utilização ganha espaço com estudos que envolvem a análise geoestatística dos dados que compõem a variabilidade espacial sobre a fertilidade dos solos nas áreas de produção.

Além dos atributos químicos, é analisada a condutividade elétrica do solo e sua influência na produtividade.

Alimento dos deuses

O cacaueiro é uma planta que tem origem nas florestas pluviais da América Tropical, nas regiões mais próximas da linha do Equador.

Botanicamente, o cacaueiro pertence à família das Sterculiáceae. Em 1753, o botânico e zoólogo sueco Carl von Linnaeus (1707-1778) batizou o cacau com o nome científico de Theobroma cacao, e assim é até hoje. Theobroma significa “alimento dos deuses” em grego, como é chamado o chocolate, principal alimento derivado do cacau.

No Brasil, oficialmente, a produção de cacau foi iniciada em 1679, após uma Carta Régia de Portugal que autorizava os colonizadores a plantá-los em suas terras. Introduzido no estado do Pará, onde não teve grandes avanços, a produção encontrou lugar no sul da Bahia a partir de 1746, por meio do português Antônio Dias Ribeiro, na fazenda Cubículo, às margens do rio Pardo, em Canavieiras, sul do estado. Seis anos depois (em 1752), a cidade de Ilhéus, hoje conhecida mundialmente pela produção da amêndoa, receberia os primeiros cultivos de cacau.

Em Ilhéus, o cacau encontrou boas condições para o seu desenvolvimento na Mata Atlântica: sombreamento (sistema cabruca), solos profundos e ricos em matéria orgânica, clima quente e úmido, temperatura média de 25º, precipitação anual entre 1.500 e 2.000 milímetros e proximidade com a linha do Equador – esta última característica, aliás, faz com que a produção de cacau no mundo ocorra em uma única área do globo, como se fosse um cinturão, entre latitudes de 20° N e 20° S.

O cultivo do cacaueiro não trazia muitas preocupações para o produtor no que se refere ao manejo do solo e a produção só crescia. Até que uma sucessão de crises na produção abalou a região no início do século passado, o que forçou os governos estadual e federal a criar órgãos para socorrer os produtores e recuperar a lavoura.

Assim é que nasceu, em 1931, o Instituto do Cacau da Bahia (ICB) e a Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), em 1957.

Os dois órgãos foram criados para recuperar a produção de cacau, e, de fato, as ações desses dois órgãos geraram resultados positivos ao longo dos anos, com a introdução de novas técnicas de produção, manejo adequado do solo e variedades mais produtivas.

O resultado foi a recuperação da produção, cujo auge foi em 1985, quando foram colhidas 458.700 toneladas da amêndoa, mesmo com a área de produção reduzida por conta do avanço da pecuária sobre as fazendas de cacau.

O que ninguém esperava, era a praga da vassoura-de-bruxa (Crinipellis perniciosa), introduzida de forma criminosa na região em 1989, conforme uma investigação da Polícia Federal. A produtividade caiu a 92.000 toneladas ano, o que afetou toda a economia da região.

Novos tempos

Após mais de 30 anos da praga da vassoura-de-bruxa, a Bahia busca retomar a produtividade daquele tempo, mas com a mentalidade renovada sobre a cadeia produtiva do cacau.

A praga fez com que surgisse nova geração de produtores que apostaram na produção do cacau não só para venda como commodity, mas também no beneficiamento da amêndoa para fabricação de chocolate, nibs, mel, geleia, amêndoas caramelizadas e até destilados semelhantes à cachaça.

A maior parte da produção continua sendo o cacu commodity, comercializado localmente para as empresas moageiras, localizadas em Ilhéus, principal centro produtor e de negócios da amêndoa.

Outras produções, como de cacau orgânico e especial, atendem a nichos de mercado nacional e internacional, exigentes quanto a qualidade da amêndoa, um quesito que a Bahia já é referência, devido a premiações em concursos internacionais sobre amêndoas de qualidade, o principal deles o Cocoa of Excellence (Internacional Cocoa Award), realizado anualmente durante o Salon du Chocolat de Paris, França.

Os produtores de cacau da Bahia mostram-se hoje muito mais organizados que os de outrora: são 18 associações que reúnem 3.200 produtores. Ainda é um número baixo com relação ao total de cerca de 40 mil produtores espalhados em 83 municípios, mas ainda sim um grande avanço.

A área plantada é de 420.528 hectares, com produção de 118.018 toneladas em 2020, segundo informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), uma produtividade de 280 kg de amêndoas por hectare.

Uma importante estrutura na engrenagem dos novos tempos da cadeia produtiva de cacau no sul da Bahia é o Centro de Inovação do Cacau (CIC), iniciativa do Parque Tecnológico e Científico do Sul da Bahia.

Apesar de recente – foi criado em 2017 –, o CIC já exerce grande importância na cadeia produtiva do cacau não só da Bahia, mas do Brasil, pois serve como uma ponte entre os produtores e o mercado – é o CIC quem atesta a qualidade das amêndoas, com análises variadas também sobre o chocolate. Diariamente, o CIC recebe amostras de amêndoas de todo o Brasil.

Mesmo que o momento atual de pandemia tenha feito recuar o consumo mundial de chocolate, devido ao fechamento por quatro meses dos principais centros de consumo e atingido em cheio a principal época de consumo de chocolate (a Páscoa), as perspectivas de desenvolvimento da produção do cacau na Bahia são otimistas por conta da procura da amêndoa por parte de países da Europa e Ásia.

Em fevereiro de 2020, por exemplo, a Bahia enviou para a França e Bélgica 12 toneladas de amêndoas de cacau especial para fabricação de chocolates gourmet, algo inédito na história da região sul. A China também tem despertado o interesse por grandes remessas de cacau do estado.

Este novo protagonismo da produção de cacau na Bahia se dá também pelo trabalho desenvolvido por meio de um evento de grande porte realizado em Ilhéus e que já atravessou as fronteiras da Bahia e está presente nos estados do Pará e São Paulo: o Chocolat Festival, maior evento anual da cadeia produtiva do cacau e chocolate da América Latina.

Além de divulgar a cultura do cacau na Bahia, o evento deu novo ânimo aos produtores da região, ao trazer tecnologias de produção inovadoras para fabricação do chocolate, onde marcas como ChOr, Mendoá e Sagarana, dentre outras, se destacam pela excelência na produção.

Técnicas de produção e uso de tecnologia

Do cacaueiro ao chocolate, são novos tempos para a cadeia produtiva do cacau na Bahia. E essa nova era de produção é caracterizada, sobretudo, pela inovação na forma de produzir, com o desenvolvimento de técnicas modernas de cultivo que geram uma amêndoa de melhor qualidade.

Uma das inovações é com relação a adoção de novas tecnologias de manejo e uso de variedades seminais e clonais de produtividade elevada e tolerantes à vassoura-de-bruxa. Uma centena de variedades vem sendo desenvolvida ao longo dos anos por parte dos produtores, com o objetivo de elevar a produtividade e a qualidade.

Ao mesmo tempo, está sendo buscada uma melhor relação com o solo da Mata Atlântica, que, mesmo sendo rico em matéria orgânica e nutrientes para o cacaueiro, necessita de reposição nutricional para que possa produzir bem a cada safra. Afinal, são quase 300 anos de produção: mudam-se as árvores e é preciso também manter o solo em bom estado.

Nesse quesito, a análise geoestatística tem sido uma boa ferramenta utilizada na agricultura de precisão para o estudo da variabilidade dos atributos de solo, ao considerar que as amostras que se apresentam próximas no tempo e espaço são mais semelhantes entre si por carregarem informações de suas vizinhanças, quando comparada às amostras que se encontram mais distantes.

Estudos recentes mostram que a geoestatística comprova que existe dependência entre as variáveis e que estas necessitam ser consideradas nas avaliações. Para tanto, deve-se realizar uma amostragem detalhada para identificar a variabilidade existente.

Em um desses estudos, foi possível a construção de 23 mapas de variabilidade espacial que identificou regiões específicas com níveis variáveis dos atributos, os quais podem ser utilizados como referenciais para a correção da fertilidade do solo em taxas variadas.

A análise de zonas de manejo permitiu a construção de 20 mapas, sendo nove mapas com duas classes, oito mapas com três classes e três mapas com quatro classes.

É uma amostra de que o conhecimento da variabilidade da textura do solo através de técnicas de agricultura de precisão e da geoestatística permite um manejo específico das áreas de cultivo e a aplicação de insumos de forma eficiente.

Ao aplicar estas técnicas da agricultura de precisão e da geoestatística, os produtores de cacau da Bahia promovem o prolongamento da produção, e a baixo custo, já que há a redução de insumos, e consequentemente, com mais respeito ao meio ambiente.

Ao mesmo tempo, conseguem obter melhores ganhos em produtividade e qualidade com a amêndoa do cacau. Não à toa, o estado já é reconhecido internacionalmente como região de produção de cacau de qualidade.

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Referências

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Perla Silva Matos de Carvalho, Samuel de Assis Silva, Arlicélio Queiroz Paiva, George Andrade Sodré e Julião Soares de Souza Lima. Variabilidade espacial da fertilidade de um solo cultivado com cacaueiro. Revista Engenharia na Agricultura, V.26, n.02, p.178-189, 2018.
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Railton Oliveira dos Santos. Mapeamento de atributos físicos do solo em área de cacau como ferramenta para gerenciamento agrícola. Dissertação de mestrado em Produção Vegetal, UESC, 2016.
Roger Luiz da Silva Almeida, Lucia Helena Garófalo Chaves, Roger Luiz da Silva Almeida Filho. Mapeamento de atributos de solo e planta em área de cultivo de cacau para fins de agricultura de precisão. Congresso Brasileiro de Agricultura de Precisão- ConBAP 2014. São Pedro – SP, 14 a 17 de setembro de 2014.
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Fonte: Canarural